ENEL (ENEL)
As "utilities" (água, luz, gás) europeias estão a perder terreno em bolsa na sessão desta quinta-feira, a acompanharem a forte queda dos preços do carbono. Isto depois das sugestões de que a União Europeia (UE) deveria intervir no mercado - uma medida que os investidores receiam que possa encolher os lucros do setor.O preço do contrato de referência europeu para o carbono caiu para o nível mais baixo desde agosto, depois de os líderes de alguns países, como a Alemanha, Itália e República Checa, terem dito que a União Europeia deve ponderar rever o Sistema de Comércio de Licenças de Emissão (CELE) do bloco. Assim, com esta proposta, os preços dos certificados de carbono da UE seguem a recuar 7% para 73,08 euros por tonelada, depois de já terem estado nos 72,18 euros - o nível mais baixo em cinco meses. O chanceler alemão Friedrich Merz disse na quarta-feira à noite, num encontro com executivos do ramo industrial, que considera que deve haver uma reavaliação do sistema se este não for capaz de reduzir as emissões e apoiar a indústria na transição para uma produção mais limpa. "Deveríamos estar abertos a uma revisão ou, pelo menos, a um adiamento", afirmou, citado pela Reuters. As suas palavras reforçam a perspetiva de mudanças nesta política. Os comentários destacam a crescente pressão da maior economia da Europa para aliviar o peso das regras climáticas sobre a competitividade industrial. A UE já concordou no ano passado em adiar um mercado de carbono separado para edifícios e transporte rodoviário devido a preocupações com os custos de energia e a reação pública. Os ajustes potenciais podem incluir a desaceleração da eliminação gradual de licenças gratuitas, alteração dos controlos da oferta ou maior flexibilidade para setores intensivos em energia. O CELE obriga as centrais elétricas e indústrias a comprarem licenças de CO2 quando poluem, e estabelece um tecto para a quantidade de licenças no mercado - isto de modo a reduzir as emissões com o tempo. "Aqueles que têm estado a especular e a comprar certificados verdes estão a perceber que, se a mensagem ganhar tração, poderá haver alguma diluição", comentou à Reuters Luca Moro, diretor operacional do SpesX, um fundo italiano focado na transição energética. "Se os créditos de CO2 caírem, os preços da eletricidade caem. E quando os preços da eletricidade caem, quem gera ganha menos", acrescentou. Com isto, o índice europeu de "utilities" está a perder 2%, naquela que é a maior queda setorial desta sessão, e está a reduzir parte dos fortes ganhos deste ano. Por cá, no PSI, a EDP é a cotada que mais recua, a ceder 2,28% para 4,33 euros. No resto da Europa, entre as maiores quedas estão a alemã RWE, as italianas A2A e Enel, a finlandesa Forum, a austríaca Verbund e a dinamarquesa Orsted, todas elas a perderem entre 2,4% e 6,4%. Recorde-se que a União Europeia terá de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa até 90% em 2040 em comparação com os níveis de 1990, para garantir a meta de impacto neutro no clima até 2050. O principal instrumento, o Sistema de Comércio de Licenças de Emissão, fixa um preço ao carbono e abrange os setores da energia, indústria e aviação. A revisão da lei do clima introduz flexibilidades na forma como a meta para 2040 pode ser alcançada. A partir de 2036, até cinco pontos percentuais de reduções líquidas das emissões (dois pontos percentuais a mais do que o proposto pela Comissão) podem provir de créditos de carbono internacionais de elevada qualidade de países parceiros. "Uma licença de emissão permite a emissão de uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) equivalente durante um determinado período. A obtenção de licenças de emissão é feita, por regra, através de leilão - e as receitas geradas pelos leilões das licenças de emissão atribuídas a Portugal integram o Fundo Ambiental", explica a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Parte das licenças de emissão é atribuída gratuitamente, como regra transitória deste regime, nomeadamente para evitar a "fuga de carbono" - a transferência da produção para países onde as restrições em matéria de emissões são menos rigorosas, refere a APA. Ficam de fora da atribuição gratuita de licenças de emissão a produção de eletricidade e a captura, transporte e armazenamento de dióxido de carbono. "A atribuição de licenças de emissão a título gratuito tem vindo a ser reduzida e, à exceção do aquecimento urbano, será eliminada até 2030", aponta ainda a APA.
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